domingo, novembro 01, 2020

PIX - Imposto Digital - Imposto Justo?

 Em Novembro de 2007 escrevi uma nota nesse espaço sobre a CPMF, um imposto em discussão na época.  O fato de que se passaram 156 meses não mudou minha posição.  Continuo com a opinião de que essa maneira de cobrar o condomínio do país é mais justa.  Apesar de são ser um imposto proporcional à renda, prática considerada por muitos como mais eficaz para a riqueza global, ainda assim me parece justo.

No texto de 2007 escrevi: " Hoje, o uso de máquinas computacionais (hardware e software), pode implantar essa proposta eficazmente. Isso traria vantagens colossais na medida em que evitaria, supondo que a economia não partisse para o escambo ou algo análogo, dupla contribuição e unificaria todo o esquema tributário. Evitaria sonegação e traria um bruto incremento de produtividade para a economia, na medida em que a arrecadação seria feita em um único instante. Caberia aos contribuintes (pessoa física e jurídica) pedir o reembolso, e ao estado julgar o pleito"

Depois de 156 meses o Banco Central do Brasil está prestes a operar um serviço, o PIX, que tem o potencial para mudar radicalmente o uso de meios de pagamento no país.  Portanto, uma oportunidade única para que se possa fazer uma política tributária mais eficaz e mais eficiente.

Claro que isso traz muitos desafios técnicos, porque o software passa ser o ponto central do sistema financeiro/tributário. 

 

segunda-feira, setembro 21, 2020

Dia da Árvore

Vou  repetir aqui uma nota que fiz em Novembro de 2006 com o título "Dez Razões para Plantar uma Árvore

A principal razão é que hoje é o dia da árvore.  No entanto, apesar de manter o mesmo texto, alterei os elos, pela simples razão de que eles já não funcionam mais.  

Esse é um dos graves problemas para quem escreveu em modo hiper-textual: falta de consistência da rede.  Em dois deles fiz uso do Wayback Machine, em outro substituí, porque o serviço do Flickr já não funciona como antes...

Já há algum tempo que planejo escrever essa nota. Será feita agora. Na verdade, uma terceira nota, em sequência, na qual as referências também são americanas.

Enfim. Aqui vai uma versão do anúncio que a "The National Arbor Day Foundation" publica em várias revistas americanas. A que listo aqui foi retirada da "Communications of the ACM" de Julho de 2006.

  1. Árvores conservam energia.
  2. Árvores ajudam a limpar o ar.
  3. Árvores atraem os passarinhos.
  4. Árvores junto de seu imóvel tornam-o mais valioso na hora da venda.
  5. Árvores ajudam a limpar rios.
  6. Árvores combatem o aquecimento global.
  7. Árvores fazem sua rua, seu bairro ficarem mais bonitos.
  8. Árvores são verdes.
  9. Plantar uma árvore é legal!
  10. Você já plantou uma árvore?

Quando estava na escola primária, lembro que se comemorava o Dia da Árvore. Será que ainda estamos comemorando o Dia da Árvore?

Se quiser informação de como plantar uma árvore, veja aqui.

Fotos de árvores: veja aqui.


sábado, março 26, 2016

O Abraço da Serpente - Temos que Escutar a Natureza

A serpente,  como diz meu filho, é um símbolo presente em diferentes religiões. Foi sugestão dele  ver esse filme. O diretor foi sábio ao preferir a ausência de cores, e usar a luz e os tons para retratar de igual seres humanos e natureza. Dessa forma une-os, sem que o verde da imensidão amazônica tome tudo.

Sábio, também, em mostrar que línguas são apenas detalhes na comunicação humana, várias são as línguas faladas entre os homens da floresta e os homens colonizadores. Esse é também um ponto importante na própria construção cinematográfica.

O filme me faz recordar de dois marcos do cinema: Fitzcarraldo e Apocalypse Now. No primeiro, Herzog explora o profundo desafio da Amazônia, e no segundo Coppola explora a loucura dos manipuladores de crenças.

Certamente, Ciro Guerra se inspirou nesses filmes. No entanto, o filme procura dar ênfase ao ponto de vista da Amazônia ao contrário de uma visão dos colonizadores sobre si mesmos. Aqui é importante a figura do homem da floresta. Este homem solitário, único sobrevivente de um povo  dizimado, que consegue viver em sintonia com o ambiente respeitando-o para que dele possa extrair seu conhecimento. Nesse resumo damos a ele o nome de homem.

É em procura desse conhecimento que um colonizador, travestido de cientista, busca o  homem para a cura de sua enfermidade.  Essa busca, da-se com a ajuda de um homem colonizado, que encontra o homem, tido como sábio. Os três; o homem, o cientista e o homem colonizado partem num viagem pela floresta na  busca de uma planta que  poderia curar o cientista. Ao longo da aventura deparam-se com uma vila colonizada por religiosos, onde crianças, sobreviventes do massacre dos pais, são educadas com a cultura religiosa dos colonizadores.

Os três deparam-se também com um grupo de locais, onde são bem recebidos e onde as bugigangas trazidas pelo cientista são admiradas pela curiosidade do novo. Nesse contexto, ao deixar o grupo dos locais, o cientista nota a ausência de sua bussola. Revolta-se, torna-se agressivo, para depois perceber que o chefe do local está com sua bugiganga e oferece prendas locais em sua troca. O cientista revolta-se, mas ante o número de locais tem que partir em sua jornada como o homem  e o homem colonizado. Nesse ponto o homem sabiamente diz: eles também têm o direito de conhecer.

A jornada termina em outra vila, ocupada por moradores fugidos de tropas à serviço dos colonizadores. Nessa vila, o homem  resolve destruir todos os pés da planta que poderia salvar o cientista. Nessa vila, encerra-se a história do cientista.

Em tempo futuro, está o homem, envelhecido,  escrevendo sua história na pedra, quando aparece outro cientista, mais novo, que diz que o procura, porque o homem colonizado tinha escrito sobre as aventuras do passado, onde o homem tinha destruído a planta que poderia ter salvo o cientista.

O cientista novo convence o homem da importância da busca da planta. Novamente, inicia-se uma aventura de busca da planta salvadora. O homem está cansado, mas mesmo assim acredita que vale a pena retornar as profundezas da floresta para redescobrir outros pés da planta. No caminho, passam pela mesma vila onde os religiosos mantinham os meninos sobreviventes. Agora essa vila, semi destruída, era comandada por um louco mediúnico que comandava humanos sem rumo. Um Jim Jones, um Kurtz de Apocalipse Now.

O homem, que era um sábio,  ainda acredita, como acreditava, que sua missão era passar conhecimento aos seus, que pensava ainda viviam em algum lugar. Portanto, para ele era importante a cruzada de volta ao passado na tentativa de mais uma vez contar o que sabia ao seu povo, e por isso aceita essa nova aventura.

O  cientista novo e o homem chegam então ao último pé da planta salvadora. Ali, descobre o homem:  o cientista novo queria a planta para fins diferentes do que pregava, mas, mesmo assim, faz-lhe consumir a planta. Nesse momento, o homem entende que sua missão era a de levar o conhecimento ao colonizador, ao contrário do que pensava. Era o colonizador que tinha que ser esclarecido. A aceitação da colonização era o objetivo falso, o verdadeiro era dar conhecimento da floresta para os colonizadores: aqueles que queriam tirar dela apenas as vantagens para seu mundo. Mundo esse,  diferente,  onde as regras da natureza tinham sido esquecidas, pela marcha da conquista do artificial.

É isso que o filme quer transmitir, há que escutar a natureza, da qual somos parte e de que existem regras para nossa convivência.

domingo, setembro 28, 2014

Eleições 2014 : Deputado Federal Estado do Rio de Janeiro

Bom que poderemos votar no Domingo. Votar, além de um dever é um privilégio.  Os brasileiros conquistaram esse priviléigio tornando-o um dever.  Nada mais sábio. Poucos países têm essa oportunidade de eleições diretas e majoritárias nessa escala. Por isso é importante votar, para que possamos continuar a ter a possibilidade de expressar nossa escolha.

Votar é um privilégio, mas dá trabalho.  Um das tarefas de quem vota é saber escolher a quem dar seu voto.  Cada voto é extremamente importante, mesmo sendo um em milhões.  Cada um dos votos dos milhões de votos reflete uma decisão pessoal.  Como escolher?  Qual dos candidatos que honrará a sua escolha?  Será que devo votar ideologicamente, e deixar um partido escolher por mim?  Cada instância de voto: presidente, senador, deputado, prefeito, vereador tem um papel distinto na democracia e a cada um cabe um viés de escolha próprio.  No entanto, o que normalmente o eleitor procura  é votar naquele que julga o melhor, naquele que será fiel as suas promessas, aos seus princípios.  Nisso, a história de cada candidato é de extrema importância, porque é um guia, porque é a âncora  para nossa decisão.

Meu voto para Deputado no Rio de Janeiro é de Otavio Leite (4555).  Quem conhece algo sobre o processo eleitoral, sabe das dificuldades e do sacrifício pessoal de quem se candidata, principalmente quando o faz, porque acredita que poderá ajudar a sociedade.  Requer muita coragem.  Admiro Otavio Leite, por sua coragem e disposição de ajudar os outros.

Vejam aqui a linha do tempo do candidato:




Se você analisar os candidatos, verá que Otavio Leite tem um perfil onde a principal característica é a humanística, a de querer ajudar o avanço da sociedade no sentido de uma sociedade mais justa e mais solidaria.  Sua dedicação à causa das pessoas com deficiências é reconhecida de longa data e uma marca de quem quer ajudar os que necessitam.  Esse traço de solidariedade é fundamental. 

Como o próprio Otavio diz em sua campanha: sua história é a mais sólida razão para que se vote nele.  Deputado federal na segunda legislatura tem marcado sua presença na defesa dos interesses do Estado do Rio de Janeiro, mas também procura legislar com interesse nacional, e aí vale a pena ressaltar suas iniciativas no setor de música, das pequenas empresas e na visão do papel positivo que podem desempenhar as “lan-houses”. 

Tenho o privilégio de conhecer Otavio Leite por laços de família. Ele é meu primo. Um dos seus mentores políticos foi meu avô, Julio Cesar Leite, senador da república nas décadas de 50 e 60. Dr. Julio Leite foi um exemplo de político republicano com um forte viés social democrata. Sua atuação política sempre foi marcada por posições de defesa dos interesses nacionais, pelo apoio à inclusão social e apoio às artes e a educação. De meu avô aprendeu o gosto e o jeito da boa política. De saber escutar e de tentar, através da negociação, uma solução de consenso. Esse traço político é fundamental e explica a carreira vitoriosa de Otavio.

Otavio é político porque acredita que a política é o meio de transformar a sociedade em um lugar melhor para todos. Um traço importante nessa sua crença é que sua estreia na política se deu na Universidade, na faculdade de direito da UERJ. Otávio iniciou sua vida política no PDT e teve o privilégio de pertencer a um partido que era comandado por Leonel Brizola e influenciado pelas ideias de Darcy Ribeiro. O jogo político, em função de sua participação na equipe de Marcelo Alencar, levou-o ao PSDB onde se firmou como vereador, como deputado estadual, vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro e deputado federal.

Admiro sua coragem e dedicação pela causa pública, por estar, mais uma vez, lutando para mostrar que fazer política é uma atividade nobre.

Enfim. Voto é uma escolha pessoal. Escolha. Voto é secreto. Vote.

terça-feira, julho 29, 2014

¿Conoces la Isla del Sol?

Eu ainda não conheço, mas meu filho Julio Cesar conhece.  

A cena onde essa pergunta aparece é uma das grandes cenas do filme Días de Pesca (Filha Distante) de Carlos Sorin.  Nela, Marco encontra um grupo de Calí para comer mexilhões, aqui a participação da atriz que faz a pergunta é marcante.  Esse grupo de viajeros, jovens, se assusta ao saber que Marco, 56 anos, pouco conhece da América.  O diálogo, aí travado, lembrou bastante às cenas da novela Avenida Brasil: todos falando ao redor da mesa, ao mesmo tempo; só que a “mesa”, no caso, são pedras à entrada de uma caverna a beira mar, onde os viajeros estão acampados.  Completo domínio do movimento de câmera, alinhado a um diálogo concorrente: nota dez.


O encontro de Marco com o treinador de boxe, na lanchonete do posto de gasolina, é, também, excelente.  A posição da câmera, a luminosidade, a simplicidade da cena é de tal, que leva o espectador ao lugar.  A sequência que aí se desenrola é magistral, humana: mostra a aproximação de dois homens, de origem distinta, de um mesmo país, numa conversa aberta e reveladora de cada um e de seus contextos.


A explicação do experiente pescador sobre como pescar tubarões, sobre o equipamento, sobre os movimentos é também de uma realidade incrível e natural, ao ponto de ser poética. 


O controle de luz no rosto de Victoria Almeida na cena da mesa de jantar com Alejandro Awada é demonstração de técnica exemplar, marca, de uma maneira intensa, o rosto da jovem filha, ante a um pai ausente.


A preocupação com a integração latino americana de Carlos Sorin é de uma elegância extrema: estão no filme o Brasil, o Peru, a Colômbia e a Bolívia de uma maneira tão inteligentemente costurada que pode passar desapercebida.  A presunção de que uma lutadora da  Bolívia, que o treinador brinca dizendo parecer-se com Evo Morales, seria uma luta fácil, a fala do treinador boliviano, e a sequência do resultado da luta é um tapa com luva de pelica.


Nota-se também uma preocupação especial do diretor ao apresentar seu país, todos os ambientes do filme são limpos, as coisas estão no lugar, por mais simples que seja o lugar: do hotel, do hospital, da casa da filha em Jamarillo, do posto de gasolina.  A estética “clean” dos lugares, ressalta os tipos humanos que aí habitam.


Como disse no meu Twitter: um filme essencialmente humano.  Tanto me chamou atenção, que estou a escrever aqui, antes de falar sobre a Copa do Mundo de 2014:  voltarei.

segunda-feira, junho 03, 2013

Maracanã

Palavra tupi-guarani nomeia o rio que nasce no maciço da Tijuca e corre na direção da Baía de Guanabara via o Canal do Mangue.  No seu caminho foi erguido um estádio, que levou o nome do rio de maneira popular e depois foi batizado de estádio Mário Filho.  Esse estádio foi construído para sediar a copa do mundo de 1950.  Foi, durante muitos anos, o maior estádio do mundo em número de espectadores, chegando a receber 199 mil torcedores.  Nas eliminatórias de 1969 (188 mil torcedores ) assisti parte do jogo com o Paraguai em cima de uma geladeira da Kibon, diretamente sob o teto do estádio.

O Maracanã sempre foi um lugar familiar.  Frequento-o desde dez anos de idade.  Fui com meu pai uma ou duas vezes, mas quem me familiarizou com ele foi, sem dúvida, o tio Jonir. Íamos com o Cesar e o Edgar nas cadeiras sem número. Por algum tempo fui com meu amigo Juarez, e depois ia com frequência com meus filhos Pedro e Julio, quase sempre na arquibancada.  Posso dizer que é um dos lugares públicos que mais frequentei durante a vida, em  muitos campeonatos indo quase toda a semana.
Desde o último jogo em 2010, venho acompanhando de fora e, de certa maneira sofrendo, com sua demolição parcial. Foi muito angustiante acompanhar os vários estágios durante esses dois anos.  Aprendemos a ir de trem ao Engenhão, mas sem comparação.
Ontem voltei ao Maracanã depois de tanto tempo.  Estava no Jardim Botânico, onde vi a bela exposição do Sebastião Salgado, quando me chamou meu irmão Marcio.  Um convite de última hora.  Com o total apoio de Marta, refiz meus planos do dia e fui me encontrar com ele, com a Carol e o Rafa.  Fui de táxi.  A Avenida Maracanã e o viaduto estavam fechados, então saltei no início do viaduto e fui a pé, tranquilamente, até a estátua do Bellini.  Daí até ao lugar (O, 13, 223) foi fácil.  A organização da entrada foi do mesmo tipo da usada no Pan em 2007, onde assisti a final do futebol feminino.
Quando cheguei na cadeira, o jogo já tinha começado.  Caramba!  É estranho:  mesmo endereço, mas um lugar totalmente diferente.  Completamente diferente, outro, novo.  O meu Maracanã não existe mais, tenho que refazer os laços para esse novo espaço, que espero voltar muitas vezes, mas de lembrança, só o local geográfico as margens do rio Maracanã.
O que mais posso dizer?  Visibilidade de onde estava: ótima.  Iluminação perfeita.  Ótimo conforto, mas com problema sério de som.  O som, decibéis, estava acima do máximo permitido por lei.  As telas gigantes em nada ajudam e geram desconforto porque parecem fragilmente ligadas ao teto de plástico.  Sobre o jogo, bom isso é outra estória; posso dizer que foi ok, mas certamente foi coadjuvante às emoções de retornar a casa e vê-la outra. 
Estou ansioso para voltar, principalmente quando for à vez do Flamengo voltar a casa.  O ponto é que mudou:  o que ficou, foi saudade.  Agora é um processo lento de adaptação.
Obrigado Marcio.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Manet no Rio de Janeiro

No fim do ano passado fui visitar a exposição Impressionistas no Centro Cultural Banco do Brasil.

Espetacular, apesar da fila. Ao sair encontrei na livraria um livro que despertou minha atenção: era sobre cartas que o pintor Manet escreveu aos 17 anos, quando de sua passagem pelo Rio de Janeiro a bordo de um navio escola para rapazes interessados em ingressar na escola Naval Francesa.

  Abaixo vão trechos do livro, que nos permitem ver como preconceitos ditam as visões de cada um.
"Há a bordo, para nos servir, quatro pobres grumetes e dois aprendizes, os quais são tratados a socos e pontapés; o que, asseguro-te, os torna extremamente obedientes. O camareiro, que, como já te disse, é negro, está encarregado da educação desse pobres e não os poupa de umas boas surras quando saem de linha."
"Pelas ruas vêem-se somente negros e negras, pois os brasileiros saem pouco, e as brasileiras menos ainda."
"Neste país, todos os negros são escravos e tem aspecto embrutecido. O poder que os brancos exercem sobre eles é extraordinário. Tive a oportunidade de visitar um mercado de escravos: espetáculo bastante revoltante para nós."
"Visitei várias igrejas. Nenhuma delas é comparável às nossas: são cobertas de dourado e totalmente iluminadas, mas sem qualquer gosto."
"Nesta cidade, utiliza-se somente papel-moeda ou moedas de cobre, e tudo é terrivelmente caro."
"Diariamente, uma chalupa de terra vem a bordo carregada de bananas, laranjas, ananases etc; e tudo a excelentes preços."
"No domingo gordo, durante todo oo dia, passei pela cidade. Às 3 horas da tarde, todas as mulheres brasileiras saem ou às janelas ou aos balcões de suas casas e atiram, em todos os homens que passam pela rua, umas bolas de cera coloridas, a que dão o nome de limões. Em várias ruas por onde passei, seguindo o costume do país, fui atacado. Trazia os meus bolsos cheios desses limões e respondi da melhor maneira possível aos assaltos, o que é muito apreciado."
"A cidade, ainda que feia, tem, aos olhos de um artista, um caráter particular."
"Quanto aos brasileiros, são preguiçosos e parecem não ter muita energia. No tocante as brasileiras, são muito distintas e não merecem a reputação de levianas que têm na França. Nínguem pode ser mais recatada e mais tola do que uma brasileira"
"Os arredores da cidade são incomparavavelmente bonitos, nunca vi uma natureza tão bela".
 
Edouard Manet, Viagem ao Rio - Cartas da Juventude 1848-1849 -  
José Olympio Editora 2 ed. 2008.

sábado, outubro 06, 2012

Eleições 2012


Votar é um privilégio, mas dá trabalho.  Um das tarefas de quem vota é saber escolher a quem dar seu voto.  Cada voto é extremamente importante, mesmo sendo um em milhões.  Cada um dos votos dos milhões de votos reflete uma decisão pessoal.  Como escolher?  Qual dos candidatos que honrará a sua escolha?  Será que devo votar ideologicamente, e deixar um partido escolher por mim?  Cada instância de voto: presidente, senador, deputado, prefeito, vereador tem um papel distinto na democracia e a cada um cabe um viés de escolha próprio.  No entanto, o que normalmente o eleitor procura  é votar naquele que julga o melhor, naquele que será fiel as suas promessas, aos seus princípios.  Nisso, a história de cada candidato é de extrema importância, porque é um guia, porque é a âncora  para nossa decisão.

Bom que poderemos votar no Domingo. Votar, além de um dever é um privilégio.  Poucos países têm essa oportunidade de eleições diretas e majoritárias nessa escala. Por isso é importante votar, para que possamos continuar a ter a possibilidade de expressar nossa escolha.

Meu voto para prefeito no primeiro turno das eleições de 2012 no Rio de Janeiro é de Otavio Leite (45).  Quem conhece algo sobre o processo eleitoral, sabe das dificuldades e do sacrifício pessoal de quem se candidata, principalmente quando o faz, porque acredita que poderá ajudar a sociedade.  Requer muita coragem.  Admiro Otavio Leite, por sua coragem e disposição de ajudar os outros.  A batalha que Otavio Leite teve que lutar para chegar a candidato de um partido da importância do PSDB é uma prova de perseverança e coragem.  

Se você analisar os candidatos, verá que Otavio Leite tem um perfil onde a principal característica é a humanística, a de querer ajudar o avanço da sociedade no sentido de uma sociedade mais justa e mais solidaria.  Sua dedicação à causa das pessoas com deficiências é reconhecida de longa data e uma marca de quem quer ajudar os que necessitam.  Esse traço de solidariedade é fundamental. 

Como o próprio Otavio diz em sua campanha: sua história é a mais sólida razão para que se vote nele.  Deputado federal na segunda legislatura tem marcado sua presença na defesa dos interesses do Estado do Rio de Janeiro, mas também procura legislar com interesse nacional, e aí vale a pena ressaltar suas iniciativas no setor de música, das pequenas empresas e na visão do papel positivo que podem desempenhar as “lan-houses”. 

Tenho o privilégio de conhecer Otavio Leite por laços de família. Ele é meu primo. Um dos seus mentores políticos foi meu avô, Julio Cesar Leite, senador da república nas décadas de 50 e 60. Dr. Julio Leite foi um exemplo de político republicano com um forte viés social democrata. Sua atuação política sempre foi marcada por posições de defesa dos interesses nacionais, pelo apoio à inclusão social e apoio às artes e a educação. De meu avô aprendeu o gosto e o jeito da boa política. De saber escutar e de tentar, através da negociação, uma solução de consenso. Esse traço político é fundamental e explica a carreira vitoriosa de Otavio.

Otavio é político porque acredita que a política é o meio de transformar a sociedade em um lugar melhor para todos. Um traço importante nessa sua crença é que sua estreia na política se deu na Universidade, na faculdade de direito da UERJ. Otávio iniciou sua vida política no PDT e teve o privilégio de pertencer a um partido que era comandado por Leonel Brizola e influenciado pelas ideias de Darcy Ribeiro. O jogo político, em função de sua participação na equipe de Marcelo Alencar, levou-o ao PSDB onde se firmou como vereador, como deputado estadual, vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro e deputado federal.

Admiro sua coragem e dedicação pela causa pública, por estar, mais uma vez, lutando para mostrar que fazer política é uma atividade nobre.

Enfim. Voto é uma escolha pessoal. Escolha. Voto é secreto. Vote.

segunda-feira, julho 18, 2011

O que é “Carmageddon”?

Nos Estados Unidos, nesse último fim de semana, essa palavra (“Carmageddon”) apareceu em vários jornais e foi manchete principal no Los Angeles Times.

Uma busca no Google leva a um verbete na Wikipédia que explica que esse nome é um jogo (vídeo-game) violento sobre carros e também o que seria o resultado do fechamento da auto-pista (freeway) 405. A 405 é a principal via do sul da Califórnia, ligando Los Angeles às cidades do condado de Orange (Orange County).

O termo Armageddon ou Armagedão em Português refere-se a uma passagem bíblica sobre o conflito final, ou o fim dos tempos. O uso do termo Armageddon com outros, é uma prática que indica a idéia de caos. Ele pode ser usado, por exemplo, para identificar tempestades de neve (“snow Armageddon”) ou no jogo supracitado, ou, como no caso de Los Angeles, para identificar o problema (caos no trânsito) que seria gerado pelo fechamento da 405.

Ocorre que, para surpresa geral, Los Angeles ou, melhor, os angelenos souberam lidar como o problema e evitaram sair de carro no tempo que a 405 ficou fechada. Foi uma surpresa, boa, que parece indicar uma tendência de que o povo de Los Angeles está cada vez mais aprendendo a ficar menos dependente do transporte individual. Vide matéria no LA Times (em Inglês).

quarta-feira, abril 20, 2011

Lynchburg Lemonade

1 parte de Jack Daniel´s
1 parte de Cointreaux
1 parte de mistura azeda ( limão 1/2 + xarope ( ferver  e esfriar (1 parte açucar + 1 parte água) ) 1/2)
4 partes de soda limonada
Gelo à vontade.

Para lembrar, sempre: se beber não dirija.

sábado, agosto 07, 2010

Filmes

Tentando colocar em dia algumas pendências, sendo uma delas escrever sobre alguns filmes que vi nos últimos meses. Falta tempo para escrever como queria, mas pelo menos vou tentar.

Sem ordem cronológica, vou colocar aqui alguns dos filmes que vi recentemente, tanto no cinema, como na TV, como no DVD. Vou começar por um que vi duas vezes: “Up in the Air” (Amor sem Escalas). É um filme que retrata alguns aspectos comuns a pessoas que viajam com freqüência por negócios. É também um filme aonde o individualismo e a ideologia da mobilidade chegam a um extremo. Como só vi o filme é difícil saber se algumas das sacadas vieram do livro ou do roteiro.

O filme retrata com precisão a fidelidade que se aprende a adquirir aos programas de milhagens. O comportamento de Ryan (George Clooney) como passageiro freqüente é muito parecido com várias pessoas que conheço. Atingir 10 milhões de milhas é sua meta. Incrível como o filme consegue fazer disso um momento de glória. Ser o número 7 e ter uma linha especial só para ele, além de poder viajar para a vida toda é um reconhecimento do espírito de lealdade a uma marca. É incrível, porque esse sentimento é, na verdade, uma das forças que move programas de fidelização.

Além disso, o filme mosta de forma clara o sistema de emprego nos Estados Unidos, onde, para a grande maioria, inexiste o princípio da estabilidade, independente de quanto tempo você serviu a empresa. Uma pessoa trabalha vinte anos e leva três meses de salário sendo despedida por alguém que nunca viu na vida (esse é o papel do Ryan). Por isso, o personagem desenvolve uma filosofia onde procura desprender-se de tudo, para ser móvel, para ser ágil. Suas dicas de como fazer malas e como carregar só o indispensável refletem essa filosofia.

Outro ponto bastante interessante é a observação de como ferramentas de software podem afetar os negócios. É um exemplo de como a automação, baseada em software “colaborativo”, pode parecer eficaz e eficiente e que no fim das contas, deixa de ser. Deve ser visto por quem acredita que é possível fazer uma automação plena de processos administrativos. Em um ponto do filme a auxiliar de Ryan, que propõe o esquema de automação, mostra a ele um fluxo de trabalho (workflow), como se tudo pudesse ser resumido por um simples diagrama de fluxo. Essa cena é fantástica, sob a ótica de Impactos Sociais da Computação. Outro ponto bastante interessante é a apresentação "power point" da auxiliar de Ryan que cunha a palavra Glocal (uma mistura de “Global” com “Local” ambas as palavras são iguais em Português e Inglês). A idéia de Glocal é tornar um negócio global em um negócio global tratado localmente. Genial.

O aprendizado de Ryan em algo que ela achava dominar, relações humanas,  é simplesmente surpreendente. Esse aprendizado resume-se a uma palavra: parêntesis. Incrível.

Além disso, atuações primorosas, principalmente do George Clooney, ótima montagem, excelente ritmo, e lindas tomadas aéreas. A referência a Amélie Poulain é muito bem caracterizada, a ponto de levar o aeroporto de Saint Louis a ser um ponto importante ( aqui uma aula de história, de porque o avião de Charles Lindbergh chamava-se “Spirit of St. Loius”). O fim, com a frase sobre a ponta da asa (Wingtip - “The stars will wheel forth from their daytime hiding places; and one of those lights, slightly brighter than the rest, will be my wingtip passing over.“), é, de certa maneira, poético. Parabéns ao Jason Reitman. Excelente filme.

Outro filme fora de série é Mademoiselle Chambon. O fora de série desse filme é porque é um filme “perfeito” sob a ótica do cinema. É uma história com começo e fim, é um drama, é contado de maneira “imparcial”, tem excelentes interpretações e é sutil o suficiente para passar-se por realidade. Nada que vá ficar na história do cinema, mas há que parabenizar Stéphane Brizé pela aula de cinema correto.

Falando na França, pela terceira vez. O filme O Pequeno Nicolau, “Le Petit Nicolas” uma comédia francesa com um dos roteiros mais inventivos que me lembro e com uma realização primorosa. Baseado em um dos livros da coleção “Nicolas” de René Goscinny e ilustrado por Jean-Jacques Sempé. Usando de imaginação e criatividade esse filme vai fazer você rir até não agüentar. Além do mais: é um filme para crianças, algo raro hoje em dia. O que liga O Pequeno Nicolau com a Madame Chambon é a excelente atriz, que, em ambos os filmes, é professora: Sandrine Kiberlain.

Do cinema francês para o cinema argentino. O filme O Segredo dos seus Olhos (“El Secreto de sus Ojos”) é magistral. Por isso mesmo ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Fui ver o filme intrigado pela crônica de Luis Fernando Veríssimo na primeira semana de Agosto, onde fazia uma ode a Soledad Villamil atriz principal do filme. Bela e excelente atriz, Soledad faz de maneira forte o personagem da doutora Irene. O filme é esplendidamente contado e filmado, entremeando, de forma elegante, passado e presente no jogo da mémoria da doutora Irene e do agente de justiça Benjamím Esposito, magnificamente desempenhado por Ricardo Dárin.

O filme retrata os diferentes espíritos argentinos. A barreira que Benjamín cria em volta de Irene é típica e reflete um esteriótipo da moral católica argentina: o respeito ao formal confrontado com a paixão. O trago depois do trabalho nos típicos bares de Buenos Aires, a paixão pelo futebol, o ranço da ditatura franquista e seus seguidores portenhos acobertados pela mais cruel ditadura do continente são marcas indíscutíveis da argentinidade do filme. Isso é bem mostrado na transformação do "TEMO" para "TE AMO".

No contexto do futebol, uma das cenas mais espetaculares do filme é o “travelling” que desemboca no campo do Racing. É pura paixão, é puro futebol. Magistral.

É um filme triste, violento, mas: mais um depoimento de denúncia dos crimes cometidos durante o período da ditadura militar. Imperdível: parabéns Juan José Campanella.

Um pouco de cinema brasileiro. Boa a adaptação da história de Chico Xavier. Parabéns Daniel Filho. Parabéns ao Nelson Xavier, um dos melhores atores do cinema brasileiro. Muito boa também a atuação de Ângelo Antônio. Há que ter muita disciplina. Lições de vida brasileira.

Um filme denúncia embrulhado em ficção, Salve Geral, é simplesmente fora de série. A atuação de Ándrea Beltrão é digna de Oscar, simplesmente fantástica. Um papel que demandou da atriz um desempenho fora de série e que é extremante distante da grande maioria dos pápeis que desempenhou. Um show de interpretação. Também memorável é o desempenho de Denise Weinberg, excelente.

O filme é pesado, é triste, é ficção, mas, infelizmente, extremamente real. São fatos reais que ocorreram em 2006 na cidade de São Paulo. a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. É uma demonstração clara e inequívoca da grande desigualdade social do nosso país. É um filme de terror, mas que deveria ser assistido, para que possamos lembrar o quanto temos que melhorar. Um excelente trabalho de Sergio Resende.

Finalizo minhas observações com um ator: Leonardo DiCaprio. Vi, na mesma semana, a Ilha do Medo (“Shutter Insland”) e Origem (“Inception”). Dois filmes fora da curva.

O primeiro é um primor de construção, misturando sentimentos, realidade e loucura, com um cenário fantástico. As interpretações são excelentes, o roteiro muito bom e o mestre Scorsese fez um filme no seu nível. É um filme que não termina quando chega ao fim, fica na sua cabeça, quer pela memória visual, quer pela intrigante estória.

O segundo filme é simplesmente fantástico. É certamente um dos melhores filmes sobre os limites do humano. Ele parte de três coisas: do sonho, da participação de outrem no sonho de alguém e no conceito de arquitetura do sonho. Sobre isso impera a observação que no sonho, você, sua mente, cria e participa do sonho ao mesmo tempo. A exploração da concorrência do sonho é realmente um achado espetacular. É preciso entender isso para que se possa desfrutar do filme.

O filme supõe que existe uma tecnologia que permite que se sonhe junto, ou pelo menos que se participe do sonho de outrem. O protagonista, Cobb (DiCaprio), é especialista em roubar informações dos sonhos. Portanto, os sonhos que planeja são sonhos de confronto, onde a violência faz parte, isto torna o filme um filme de aventura (a moda americana, isto é com profusão de armas), mas isso é a fachada para atrair público. O fantástico do filme é o aninhamento dos sonhos (um sonho dentro do sonho) em diferentes níveis de abstração. Isso é feito de maneira espetacular, onde a cada sonho mais profundo, maior é a proporção de desigualdade no tempo. Amazing!

Parabéns Christopher Nolan! O filme é um marco, não só no cinema e na sua linguagem, mas como uma obra que nos ajuda a pensar  sobre o mecanismo humano do inconsciente e do consciente:  um dos grandes mistérios do ser humano. Vá ver o filme logo. Tenha paciência e preste atenção. Apesar dos vários níveis em que é contado, o filme é seqüencial, portanto aproveite. Obrigado Berardinelli pelo alerta, só creio que deverias ter dado cinco estrelas ( "you should have given it 5 stars").

sábado, janeiro 09, 2010

“As Máquinas Estão Paradas Agora Quem Fala Grosso Somos Nós”

A frase acima foi tirada de uma foto na página 117 da edição 550 da Revista Veja. Nela, em primeiro plano, aparece o presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Nessa mesma revista, na edição 583, página 20, há um trecho curioso, diz: “... que o grevismo, doença infantil do novo sindicalismo brasileiro, não compensa”. É incrível como essa revista usa adjetivos para formar opinião.

Essa nota é para comentar o filme, “Lula, o Filho do Brasil,” de Fábio Barreto. Esse filme traz uma série de recordações pessoais de diferentes tipos.

Uma delas é do colégio André Maurois , onde o irmão do Fábio, o Bruno, estava sempre de camisa bem engomada. Nesse momento em que o filme está na sua segunda semana, fica um pensamento de solidariedade com a família Barreto pelos momentos difíceis que está passando.

O segundo ponto de lembranças diz respeito ao ano de 1979. Vivi o período da criação do novo sindicalismo brasileiro de uma perspectiva extremamente rica. Meu pai era consultor jurídico do Ministério do Trabalho e pude saber, por ele,  das lutas internas entre a linha dura e os que procuravam cumprir os objetivos do Ministério, como um defensor dos interesses dos trabalhadores. Meu pai foi um grande jurista e sempre acreditou na força pacificadora da CLT.

Nesse período eu terminava meu mestrado em Informática, mas acompanhava, com atenção, o movimento sindical, tanto pela imprensa como pelas notícias e preocupações de meu pai.

Em 1985, estava na segunda parte de meu doutorado na Universidade da Califórnia, Irvine, quando resolvi fazer um curso de roteiro como uma tentativa para melhorar a escrita do Inglês. No curso, poderia treinar a escrita e o faria de uma maneira divertida, porque, no fundo, sempre tive vontade de fazer filmes. Em um dos exercícios do curso, produzi um roteiro com o título “Strikes” (Greves). Esse roteiro, escrito em duas colunas, uma para movimento de câmera e descrição de cenário e outra para diálogos, mostrava a comparação de duas greves emblemáticas, de uma maneira extremamente sutil. Se souber Inglês, leia o texto original, mas vá sabendo que o Inglês é de aprendiz.

As greves a que se refere o roteiro de "Strikes" são a greve dos metalúrgicos do ABC no ano de 1979 e a greve dos controladores aéreos dos Estados Unidos em Agosto de 1981, onde, de uma só vez, 11.345 trabalhadores foram demitidos pelo Presidente Reagan. O roteiro usa esse paralelo para surpreender a audiência.

Vi o filme do Fábio na querida cidade de Salvador. É um filme de difícil leitura porque vem envolto em campanhas políticas, publicitárias e um intenso debate sobre o objeto do filme e não sobre o filme, mesmo porque muitos dos que opinaram não tinham visto o filme. Portanto, a medida que o filme se desenrolava minha postura crítica era constantemente debatida em função da análise do objetivo do filme e não necessariamente do filme.

O filme começa com uma forte influência do cinema novo. Certamente Nelson Pereira dos Santos e, claro, seu próprio pai estão presentes na primeira parte (Vidas Secas). No entanto, esse preâmbulo é esquemático e poderia ser mais lírico do que me pareceu ser.

Na viagem de caminhão, 13 noites e 13 dias, me pareceu fora de contexto a bandeira do Brasil na traseira do caminhão. Tendo visto tantos caminhões antigos no Nordeste, o uso da bandeira me pareceu artificial, mas talvez esse caminhão tivesse sim a tal bandeira, que na verdade era uma pintura e não exatamente a bandeira.

O movimento em Santos é muito bom, mas a interpretação do pai me pareceu um tanto forçada. É sem propósito o mercantilismo na cena do armazém. A imagem que fica da corrida atrás dos filhos é boa e ficou bem marcada a posição do menino “homem não bate em mulher”. A professora Lucélia está bem, mas de certa maneira o diálogo com a mãe é pouco natural.

A cena da enchente é excelente, assim como do entregador da lavanderia. A escolha da atriz filha para ser nora da mãe perturba um pouco no início, mas a filha é excelente atriz e rapidamente o espectador esquece o que sabe fora do filme.

O filme cresce e torna-se muito bom no período do metalúrgico e do sindicalista, principalmente nesse último. Apenas um momento me parece fora de tom, a manifestação da mãe na entrega do diploma do Sesi, aquela maneira de cumprimento me parece inadequada ao perfil da mãe e do tempo do filme, é um cumprimento mais moderno, mas enfim....

O ponto principal, e onde o filme se agiganta, é a cena do estádio de Vila Euclides. Espetacular. Bonita , difícil de fazer mas extremamente bem feita. Para escrever essa nota, reli o roteiro de 1985: é incrível a semelhança da cena que imaginei com a cena que o Fábio filmou.

A saída do funeral é também espetacular! Aqui, me comovi porque me lembrei muito de meu pai e de sua luta em defesa dos sindicalistas.

O final é um pouco truncado, e a voz do discurso merecia melhor tratamento. Na concepção, é um fecho de ouro, porque, sem dúvida, a figura da mãe é central no filme, assim como foi na vida real. Oscar para a magnífica atriz que é a Gloria Pires ( a cena do dia 13/4/07, onde Lúcia e Cassio (Marcelo Anthony) contracenavam é magistral, mas a Globo Video tirou do ar.).

A trilha sonora é Dez, principalmente para quem sabe de cor todas as canções da época. Como gosto de dizer: o filme é “amazing”, na verdade é imperdível.

Parabéns Fábio Barreto. Um belo filme, uma bela estória, que por ser história, tão próxima, é tão difícil de contar. Que o Fábio fique bom logo, para nos brindar com outros filmes.

quarta-feira, novembro 18, 2009

500 Dias com Ela (500 Days of Summer )

Uma nova safra de diretores americanos têm tido sucesso em descrever histórias simples com uso do cinema de maneira criativa. Um traço desses autores é a construção de filmes que retratam uma convivência civilizada entre os personagens, sem seguir estereótipos comuns onde, muitas vezes, a violência impera de diversas formas. O foco desse filmes é o convívio entre pessoas, numa nova sociedade onde, segundo esses filmes, impera a solidariedade.

Posso, facilmente, elencar três filmes recentes que se encaixariam nessa classificação: King of California (Rei da Califórnia) , Under the Same Moon (Sob a Mesma Lua), Juno e Little Miss Sunshine (Pequena Miss Sunshine).

500 dias é sobre relacionamentos entre amigos, entre homem e mulher e entre trabalhador e trabalho. O filme é descompromissado sob a ótica filosófica, apenas procura contar uma história, que, de certo modo, reflete os dias atuais. É um filme sobre o “encaixe” de sentimentos.  O singular é como o filme é contado, sua narrativa e como a linguagem cinematográfica é usada. Muito criativo e extremamente bem feito. Tudo se encaixa inclusive o uso de marcações sonoras e visuais. O uso de um contador é extremamente inteligente.

Vale lembrar também a diferente caracterização de Los Angeles, sem os estereótipos usuais. No entanto, estão lá à banda da UCLA, uma das pontes, e o interior do Bradbury,  e o trem para Santa Bárbara.

Parabéns Marc Webb!

sexta-feira, novembro 06, 2009

Você já foi ao Inhotim, nega? Não? Então vá!

Parodiando o gênio Dorival. Se ir a Bahia é uma obrigação, digo o mesmo sobre conhecer esse espaço mágico na terra do ferro.

Refiro-me ao museu Inhotim, um misto de museu de arte moderna/contemporânea com um bem cuidado jardim onde as belezas artificiais se integram de maneira impactante com as belezas naturais.

O Inhotim é o que há. É simplesmente fantástico. O traço mais importante do lugar é permitir que o espectador, o visitante, participe e perceba sensorialmente o diferente. Alguns museus orientados à ciência têm esse viés de interatividade, mas o que consegue o Inhotim é  além disso. A interatividade presente em várias instalações do Inhotim é para além da mecânica, ela toca sua alma.

Três obras são especiais. A exposição sonora de Janet Cardiff, “Forty Part Motet”, com a gravação do coro de Salisbury, onde além do impacto do som, o espaço e a fuga das janelas faz uma ambiente transcendental. A obra “Através “de Cildo Meireles que toca ao andar, é de uma inteligência ímpar. A fantástica “Sonic Pavillion”, onde a Terra canta para você, simplesmente indescritível; a foto mostra o entorno, entrar, sentir, ouvir e ver é prá lá de diferente.

O Som da Terra

Parabéns a todos responsáveis por construírem esse fantástico lugar. Em especial parabéns aos curadores: Allan Schwartzman, Jochen Volz e Rodrigo Moura.

Ir ao Inhotim é uma obrigação. Fica ali pertinho de BH, no coração de Minas Gerais.

Essa percepção do Inhotim foi bastante influenciada pela excelente companhia. Obrigado Marta, Adriana, Clara e Zé!

quarta-feira, setembro 09, 2009

6 700

Muitas estradas cabem em 6 700 km, assim como, cabem, também, muitas cidades.

Por falar na estrada. A estrada é a mesma que usei numa viagem parecida há 30 anos, mas agora os caminhões são três vezes maiores e andam em velocidades superiores a 100 km por hora. Fiquei com calo de tanto segurar firme o volante, principalmente quando cruzava com esses gigantes.

Começamos no Rio de Janeiro e fomos direto a Vitória, lá colocamos gasolina, percorremos a beira-mar e perguntamos como chegar a Santa Cruz. Andamos por Vitória e por seus arredores, passando por Serra, que sempre soube ser uma região violenta, mas tudo foi sem problemas. Parte da estrada é no meio de bairros litorâneos. A paisagem fica menos urbana a medida que nos aproximamos de Santa Cruz. Eu, particularmente, gostei da paisagem: mar calmo, escuro , mas com muito verde próximo a água. Passa um clima de tranqüilidade. Vimos a colônia do Sesc: enorme, e lá tirei uma foto do peixe metalizado. Dormimos na Pousada dos Cocais, muito boa e super bem cuidada. Gostaria de voltar.

Pela manhã saímos em direção a Prado, passando pela estrada que margeia a fábrica da Aracruz e as plantações de reflorestamento. Saímos na BR quase em Linhares. Quando chegamos perto de Teixeira de Freitas, para pegar a entrada para Prado, vimos que ainda era cedo, então resolvemos prosseguir até Ilhéus.

Chegamos a Itabuna já perto de anoitecer, perguntamos num posto onde ficava a entrada para Ilhéus. Já tínhamos passado. Voltamos e chegamos à estrada já conhecida. A estrada ficou longa demais à medida que precisamos dos faróis. Queria ter entrado na Universidade Estadual de Santa Cruz, mas já estava tarde. Ainda na estrada começamos a ligar para hotéis. Primeiro em Itacaré e depois em Ilhéus. Na medida em que Marta falava ao telefone rodamos por vários bairros populares de Ilhéus, e saber que Ilhéus já foi uma cidade rica, até chegar à praia sul. Foi lá que ficamos num hotel na beira da estrada que lembrava em arquitetura o antigo Villeganhon em Morro de São Paulo. Foi bom. Tirei fotos legais das flores, e de Ilhéus ao fundo, que dediquei a Sikaa um contato do Flickr.

Saímos quase cedo e fomos tomar banho de mar em Itacaré. Escolhemos Havaízinho e Engenhoca. A trilha entre essas duas praias é uma das mais bonitas trilhas que já percorri. Lembra as trilhas de Kauai, talvez por isso o nome. Tirei belas fotos na trilha, inclusive uma das margaridas. Ficamos um bom tempo em Engenhoca, pegando onda e vendo os surfistas. Lá é que será o hotel 6 estrelas de Itacaré. A praia é belíssima em todos os sentidos e, além disso, tem o riacho de águas ferruginosas que ali desemboca. Beleza pura.

O pessoal da barraca foi super legal em cortar um real de jaca, mole, a qual ficou fácil de comer com espetinhos de madeira. Muito engenhoso, só assim a gente fica com a mão livre da cola da jaca mole. Foi um excelente lanche. Voltamos pela linda trilha e já no Havaízinho conversamos com o vendedor de coco e tomamos água de coco. É interessante que o coco que o pessoal leva para as praias é todo ele descascado. Eu já sabia, mas perguntei novamente o por quê? A razão é bem simples. Fica mais leve de transportar na trilha. Na volta para a estrada tomamos banho de rio. Água deliciosa e fria.

Voltamos para o carro e rumamos para a cidade de Itacaré.
A idéia era pegar a balsa cruzar o Rio de Contas e chegar à nova estrada que ligará Camamu até Itacaré. Só que a mesma está parcialmente pronta e, portanto haveria que pegar um trecho de terra. Perguntamos a algumas pessoas como estava a estrada. O pessoal como sempre procurou ajudar ao máximo. A informação que tivemos é que a estrada estava boa. O truque era saber onde virar à esquerda. Disseram que, dois quilômetros depois da saída da balsa, teria uma placa de um corretor e ali é que teríamos que virar. Depois seriam mais oito quilômetros até a nova estrada.

Arriscamos. Um pouco de estresse, mas super recompensado pela beleza da estrada. Só a gente. O bravo Polo foi dez. Super bucólica, muito bonita. Chegamos a BA 01. No princípio ainda só na brita e depois no melhor asfalto que pegamos. Uma estrada super nova, mas como se vê já com placas danificadas. Paramos num ponto alto da estrada. Linda vista do princípio da península de Maraú. Paramos depois no Mirante, lá, já se avista a baía de Camamu. Muito legal.

Chegamos a Camamu. Lá começamos a procurar o LP, o que já se tornou uma tradição. Creio que é a quinta vez que almoçamos lá. Comida caseira, pescados, mas principalmente um excelente tempero, bem baiano. O restaurante fica em frente da Escola Prof. Joaquim Marcelino Borges , onde existe um belo Flamboyant . Como sempre, ótima comida. Marta pediu uma fritada de aratu e eu um peixe com molho de camarão. Tomamos uma coca-cola de um litro congelada, a coca mais gelada desde muito tempo, já que, como se sabe, eu raramente tomo refrigerante.

A BA 01 é bonita porque passa por várias cidades banhadas por rios que desembocam ou na baia de Camamu a terceira maior baia do Brasil, ou no Oceano beirando a Ilha de Tinharé ou Boipeba. Uma região belíssima coberta de verde do mangue, do dendê e na parte do continente de pedaços da mata atlântica. Perto de Nilo Peçanha existem alguns balneários com cachoeiras. Ainda não conheço, mas gostaria de conhecer.

Seguimos passando por belas paisagens, mas muitos, muitos quebra-molas que evitam que as casas quase dentro da estrada sejam atingidas pelos carros, ou que as pessoas se machuquem. Chegamos a Nazaré das Farinhas, antiga cidade de importância no Recôncavo, que, hoje, pouco lembra seus tempos áureos. De Nazaré até Bom Despacho a BA 001 tem sua pior parte. Buracos e remendos por toda a parte.

Chegamos à ponte que separa o continente da ilha já quase sem luz. Chegamos até o entroncamento Bom Despacho – Caixa Pregos, mais uma vez, me deu vontade de ir a esse lugar que na minha infância era sinônimo de algo muito longe. Até hoje lembro há 30 anos quando chegando a esse mesmo entroncamento fiquei surpreso de que Caixa Prego existisse, e ao tentar chegar lá vi como era longe. Ficou claro o sentido de “lá em caixa prego”. É longe. Mas longe é um conceito muito relativo.

Chegamos a Bom Despacho, a fila do ferry estava razoável, em trinta minutos embarcamos. Bonito cruzar a baía de noite. Beleza ver Salvador toda iluminada. Tentamos ficar no hotel que gostamos, mas estava lotado. Acabamos ficando no Íbis. Jantamos na pizza ali perto.

De manhã tomamos café da manhã na nova Perini, subimos para Brotas e de lá fomos até a Igreja do Bonfim, antes passando pela igreja dos órfãos. Na volta passamos no Abrigo D. Pedro II. Foi ótimo ter ido lá depois de tanto tempo querendo fazer isto. Deixamos de comer o melhor sorvete do mundo, mas nem sempre dá para fazer tudo.

Seguimos para a praia do Forte. Almoçamos bolinhos de peixe com suco de mangaba no Souza, debaixo daquela sombra super agradável. Tentamos um hotel por ali, mas tudo estava extremamente caro. Então pegamos a estrada e partimos para o Sítio do Conde. Um lugar novo para conhecer.

O interessante do Sítio do Conde é que fica a 160 km de Salvador e a 150 km de Aracaju. Ficamos num ótimo hotel, simples, mas bastante confortável. A praia é plana, uma mistura de Sauípe e Barra dos Coqueiros. A caminhada do hotel até a cidade é ótima. Como também foi delicioso o banho de mar com o sol indo embora como fizemos no dia que chegamos. Foram duas noites aqui e creio que vale a pena voltar. Na ida para Aracaju entramos em Terra Caída para tentar cruzar de balsa para o Saco, mas a balsa ainda ia demorar muito, então resolvemos ir pela Estância mesmo.

Ótima decisão, com isso podemos passar na Estância e ver Ivan e Tia Angelina. Só que, quase em frente ao Cinema, caímos num buraco que amassou o protetor do carter e, pressionado, o cano de descarga estava fazendo muito barulho. Já de volta à BR, resolvemos parar na concessionária da Volks. O pessoal foi super simpático. O responsável reconheceu Marta porque trabalhava na concessionária de Aracaju onde ela tinha comprado o carro. A idéia era substituir o protetor, o que acabou não ocorrendo porque a peça estava em falta. Os mecânicos então desamassaram o antigo e recolocaram e o barulho desapareceu. Não queriam cobrar nada, e afinal deixamos uma gorjeta.

No caminho tiramos uma foto de uma igreja próxima a Itaporanga, que parecia ter sido importante.

Chegamos à Aracaju em tempo para um almoço. Ficamos uns dias aproveitando a praia e curtindo a família. Nesse tempo consegui fazer algo que queria ter feito a muito tempo. Fui conhecer Riachuelo, terra de meus avôs. Telma foi conosco e nos levou a conhecer o hospital Sílvio Cesar Leite, médico e irmão de meu avô. Uma das irmãs da ordem que cuida do hospital nos recebeu e mostrou o hospital: simples mas bem cuidado. Uma das coisas que falou foi do problema gerado pela fuligem da queima dos canaviais da usina Pinheiros e das reclamações que já fizeram.

Hora de prosseguir viagem. Agora com duas companheiras: Liliana e Gabriela. Seguimos direto para Tamandaré via Própria. Seria melhor termos ido por Penedo, mas por boatos de assalto na estrada acabamos enfrentando o movimento da BR que em Alagoas está em péssimo estado, aqui e ali.

Chegar a Tamandaré faz com que passemos por uma reserva muito bonita e com calçamento condizente. Nesse trecho a estrada é de paralelepípedo, creio que uns dois quilômetros.

Em Tamandaré ficamos num pousada bem simples. Recomendada pelo guru de viagens, Ricardo Freire, que a visitou em 2006. O lugar mais simples que ficamos. Foi bom. Particular é o dono da pousada, Alberto, um italiano que resolveu fixar residência em Pernambuco Ele e a família cuidam da pousada. Valeu o que pagamos. Na saída procurei examinar melhor uma construção que estava sendo feita no jardim da pousada. A princípio parecia um depósito. Era um retângulo branco, com duas portas e duas caixas para ar-condicionado. Vendo que na verdade não seria um depósito entrei e vi que na verdade eram dois quartos. Mais como podiam ser quartos se não havia janelas, só duas portas e duas caixas de ar condicionado? Fiquei curioso e perguntei a Alberto sobre as janelas. Sua explicação foi hilária, argumentou que tudo era muito confuso e que já havia entrado em conflito com dois grupos de pedreiros e que na verdade todos tinham se esquecido das janelas!

Isso é presente em todo canto que tivéssemos parado. As construções, vistas ao longo da viagem, mostram o descaso com o assunto de arquitetura urbana e a completa falta de fiscalização sobre as construções.

Nossa estada foi ótima. Fomos a um bom restaurante onde o prato chefe é um talharim de camarão com molho de tomate e creme de leite. Estava gostoso. No primeiro dia ainda tivemos tempo de um banho de mar de fim de tarde. Excelente banho, os arrecifes protegem e formam piscinas deliciosas e cristalinas. Muito bom.

No outro dia, andamos até Carneiros. Linda caminhada. No caminho cruzamos com um barco de pescadores que acabavam de chegar e com a rede cheia de pequenas lagostas. Depois, já na praia de Carneiros pegamos um pequeno barco capitaneado pelo jovem Mávio ou será que era Návio. Enfim, seu barco, Fortaleza, nos levou a uma ilha de areia e ao outro lado, num praia verde de água e mangue, com direito a banho de argila; lá comi umas dez ostras. Deliciosas. Terminamos o passeio com um almoço no Bejupirá de Tamandaré, bom, mas caro.

Na volta discutimos o uso de ar-condicionado em casas a beira-mar, onde a brisa é constante. Eu claro, acho um absurdo que alguns arquitetos não construam procurando aproveitar o vento e o sol. Para mim, casas, principalmente nas praias da costa sudeste, nordeste e norte devem usar ao máximo a ventilação natural, dando preferência a materiais como a telha de argila e com pé direito alto, aproveitando também janelas com persianas.

De lá seguimos para a costa sul da Paraíba, Tabatinga. Aproveitamos à tarde para uma caminhada ao norte costeando as falésias até a praia dos Coqueiros. Beleza de passeio. Um dos mais perigosos, porque ao subir num a falésia para aproveitar a vista, levei um tombo que pensei que tinha quebrado o cotovelo. Fui uma super dor, mas durou pouco. Marta ficou preocupada e logo subi para ver o que tinha ocorrido. O fim de tarde foi excelente, voltamos para o hotel passando por uma formação de arrecifes bastante interessantes porque formavam diferente grutas, simulando gêiseres.

Jantamos num restaurante que fica no topo da rodovia estadual entre Tabatinga e Tambaba, lugar que já tinha observado em 2007 quando fizemos um passeio às praias do Sul, partindo de João Pessoa. Foi um bom jantar e a surpresa ficou por conta de uma batida feita com uma cachaça da região, Gabriela Cravo e Canela, fermentada com canela. Muito gostosa. A pedida foi camarão empanado. A noite foi tranqüila e dormimos ao som das ondas. O café da manhã no terraço do hotel foi bastante bom, com uns biscoitos bem gostosos.

Saímos para andar pelo lado Norte na direção de Jacumã e na ida cruzamos com um pequeno filete de água que ligava o Maceió ao mar. Tirei várias fotos de algas, com verde bem escuro e em forma de cacho de uvas. Chegamos até um ponto popular da praia onde havia várias piscinas formadas pelos arrecifes. Ficamos aí algum tempo, apesar de um forte odor que não sabíamos de onde vinha. No caminho de volta tiramos algumas fotos , inclusive de uma casa que só utiliza ventilação natural, procurando aproveitar todas as chances de vento. Passamos também pela sereia que fica na frente de um dos hotéis . É uma interessante escultura que surge depois das ondas. Tirei algumas fotos, mas sem a objetiva a imagem fica bastante reduzida.

Na volta Liliana e Gabriela vieram na frente e eu e Marta demoramos um pouco mais porque fiquei tirando fotos das algas. Quando voltamos para perto do hotel, vimos que o Maceió tinha estourado: ou seja, a lagoa antes represada abriu um braço de rio na direção do mar, fazendo não só uma correnteza forte, como também criado um fundo movediço. Eu e Marta custamos um pouco a entender o que estava ocorrendo, mas a travessia não foi fácil. O grande problema era ser derrubado pela força da água e pelo fundo sem firmeza. Só aí eu dei conta do perigo. Com sorte atravessamos sem maiores problemas, no entanto ao chegarmos do outro lado, vimos que Gabriela e Liliana não tiveram tanta sorte. Liliana foi derrubada pela força da água e sua bolsa ficou toda molhada: uma pena, porque na bolsa estava a máquina digital. Foi um baita prejuízo. No entanto, Liliana é bem humorada e tirou por menos, esperando que talvez ao secar a máquina voltasse a funcionar. Depois dessa aventura, voltamos ao hotel e caímos na piscina, que é bastante bonita.

Depois do banho, fizemos o ‘“check-out” e partimos em direção a João Pessoa. No caminho pai e filha vendiam bonitos cajus. Compramos meia dúzia por um preço que no supermercado seria equivalente a um único caju. Além disso, os cajus estavam deliciosos. Continuamos andando.

Quase perto do Cabo Branco, notei que o carro estava quase falhando. Liliana ligou para sua amiga em João Pessoa para saber de um recomendação de uma oficina. Acabamos indo direto para uma concessionária da Volks. Quando chegamos, o carro parou. Como estávamos em viagem, a oficina, que já estava cheia, deu prioridade para consertar nosso carro, mas com isso esperamos mais de 3 horas! Finalmente quando nos entregaram, diagnosticado com problemas de vela e cabos, dirigi 100 metros e vi que o carro ainda estava com problema. Mostrei ao consultor, e resultado: o carro teve que ficar para ser novamente reavaliado. A revendedora foi correta ao oferecer o transporte para o hotel.

Deixamos Liliana e Gabriela na casa de amigos e seguimos para o hotel Ibis. Com imprevisto do carro, acabamos ficando mais uma noite em João Pessoa, o que foi ótimo porque pudemos aproveitar mais da cidade, principalmente da praia, onde andamos de bicicleta e chegamos até o do Cabo Branco, o ponto mais ocidental do Brasil. O carro só ficou pronto no fim da tarde, afinal o problema era na bomba de gasolina, o que talvez tenha ocorrido por um abastecimento feito em Tamandaré. Aqui, vale notar a simpatia das pessoas envolvidas, todos bem educados e solícitos, tentando ajudar ao máximo.

Em João Pessoa ficaram Liliana e Gabriela. Lá, além de lancharmos no Fina Fatia, com ótimos sanduíches, almoçamos no Mangai. Uma experiência imperdível, e com um coadjuvante inesperado, um delicioso suco de jabuticaba.
Quando estávamos saindo de João Pessoa verificamos o step. Estava vazio, e eu tinha enchido em Aracaju. Fui sorte. O pessoal do posto indicou um borracheiro, que rapidamente consertou o pneu.

Seguimos para Natal, na verdade para Pipa. A estrada, desde Recife está sendo duplicada no padrão europeu, com camadas de concreto e asfalto. Vai ficar uma estrada padrão, ligando Recife à Natal. Vimos o material do Exército, que está envolvido na construção da estrada, no entanto vimos poucos soldados e ou oficiais. Incrível que não se possa fazer isso com mais gente e com mais rapidez. Aliás, é uma situação embaraçosa que até hoje a BR-101 é a mesma de mais de 30 anos atrás.

Ficamos em Tibaú do Sul, num excelente hotel. Foi um dos pontos altos da viagem.

Nossa caminhada de Tibaú até a praia dos Amores em Pipa foi fantástica. Uma das maiores que já fizemos, talvez só um pouco menos do que de Arraial até Trancoso em 2005. No caminho passamos por lindas paisagens, algumas com as falésias expostas e outras com a falésia já com vegetação. O ponto alto foi pegar onda! A última vez, há oito anos, tinha sido no Havaí. Consegui. Foi ótimo.

Passamos pela cidade de Pipa para chegar a Praia do Amor. No caminho almoçamos um peixe bem fresco a beira mar, onde tivemos a sorte de termos a companhia de uma cantora que vive em Pipa. Ele tinha encontrado uma amiga de Portugal, pediu a dona do bar para colocar seu CD e acompanhou algumas músicas. Foi ótimo. Dali seguimos para a Praia do Amor e fomos além, subimos na falésia e tiramos várias fotos. Voltamos para Praia do Amor, de onde novamente subimos a falésia, agora por uma escada e tiramos muitas fotos dos surfistas.

Para chegar até Pipa passamos por várias pousadas, algumas com jardins muito bonitos: mais fotos. Passeamos por Pipa, vimos a loja Gatos de Rua, compramos uma garrafa da cachaça que tínhamos conhecido em Tabainga e voltamos de van, com um fanático motorista. Além de dirigir no limite tinha um coração no retro visor com o símbolo do São Paulo, além de uma Santa no pára-brisa da frente. Chegamos exaustos, mas mesmo assim fomos jantar no Mercado, muito bom restaurante em Tibau.

No outro dia atravessamos a baía de Guairá para praia de Malembá, onde se pratica o Kit Surf, excelente passeio, apareço numa foto fazendo aquela divertida brincadeira de descer no banco de areia. Gosto de fazer isso desde de pequeno. É ótimo.
Ficamos na praia e entramos um pouco na direção da baía, até partes do mangue. Lindo passeio. Na balsa de volta avistamos um golfinho, tirei algumas fotos, mas com muita distância.

Almoçamos na praia da barra, ostras e um peixe frito. As ostras eram vendidas por um gaúcho, ele próprio o criador. Vendeu-nos também um pó de ostra, como ótimo complemento de cálcio. Depois fomos ver o pôr-do-sol. Simplesmente fora de série. Depois disso passamos no trailer da Portuguesa, que fez uma batida muito boa, e a qual falamos sobre a batida de seriguela. Beleza. Isso sem falar nas noites, todas elas de lua cheia. "Amazing".

O hotel era excelente. Os quartos, como chalés: um quarto grande um banheiro com banheira e chuveiro e um closet enorme. Entre o closet e o banheiro uma pia. A construção de tijolo aparente, com estilo “clean”, e com janelas de madeira com persianas de maneira a controlar a ventilação e a iluminação. Uma das arquiteturas mais legais que já vi: unindo funcionalidade com espaço e com simplicidade. Além disso tinha uma varanda com rede. Completamente massa. Isso tudo no topo da falésia, num jardim incrivelmente verde e com flores. É torcer para que o lugar continue assim.

Jantamos numa pizzaria, simpática, mas as pizzas ficavam na aspiração de serem exatamente pizzas.

Saímos de Tibau com destino a Recife. A idéia era encontrar com Jaelson, mas esse estava viajando. Acabamos indo para Porto de Galinhas, mas perdemos tempo procurando um hotel: tudo cheio ou absurdamente caro. Na estrada de Porto uma surpresa, um enorme out-door da Rede Globo.

Voltamos a Tamandaré, mas também sem muita opção ficamos num hotel que tem uma torre alta, um pouco longe da praia. Chegamos tarde e fomos jantar no mesmo restaurante que jantamos na ida, pedimos o mesmo prato, talharim de camarão, mas o anterior estava melhor. Pela manhã demos uma volta na praia, até perto de Carneiros.

Saímos cedo com destino Aracaju. Viagem puxada. Paramos em algumas praias de Alagoas, mas sem almoçar propriamente. Chegamos no início da noite em Aracaju.

Ficamos em Aracaju por mais alguns dias. Conhecemos um novo hospital. Bem instalado. Graças, tudo sobre controle. Fomos à praia, tirei algumas fotos.

Saímos de Aracaju, direto para Salvador via linha verde. Chegamos cedo, fomos fazendo o roteiro da praia e procurando por hotel. Comemos um acarajé na Rita e acabamos ficando num hotel no corredor da Vitória. Um quarto tinha uma nesga de vista para a baía de Todos os Santos, a foto ficou bonita.

Pulamos o jantar. Pela manhã tomamos café na Perini Graça, super moderna, e fomos para o ferry. A travessia foi bem bonita As vistas foram fantásticas e renderam boas fotos. Chegamos a Bom Despacho e rumamos para Nazaré. Paramos aí para comprarmos a famosa farinha. É impressionante saber que no passado Nazaré era uma das mais importantes cidades baianas.

Chegamos cedo a Valença. Deixamos o carro no mesmo lugar da nossa viagem de 2005. Bastante prático. Pegamos a lancha rápida em direção a Morro. Viagem como sempre super bonita. É bonito ver a igreja do Galeão, sozinha ao redor do verde e do rio Taperoá. Chegando a morro, a mesma estória de sempre, buscar o hotel. Dessa vez ficamos na cidade. Um hotel com uma das vistas mais lindas do mundo (Segunda Praia). Ótimo quarto: excelente varanda. Jantamos na segunda praia, ótima moqueca de camarão. Claro que antes já tínhamos tomado a batida do Joe: creio que a minha foi de umbu. De sobremesa tomamos sorvete da Ribeira. Um luxo.

Pela manhã fizemos o passeio a Gamboa. Fantástico, como sempre. Dei um mergulho excelente e tirei fotos fora do gráfico. Tomamos banho de argila, e tirei uma foto surpreendente. Aqui, temos que explicar: a foto foi intencional, mas o resultado foi realmente além do imaginado. Curioso. Almoçamos na praia e fomos ver o pôr-do-sol no gaúcho do pão de queijo. É sempre bom.

No outro dia andamos até o fim da quinta praia e almoçamos no hotel dos chalés, ficamos a beira da piscina, no meio do belo jardim. O peixe estava excelente, mas como esperado atraiu as grandes moscas. Lá aprendemos com o gerente da pousada que queimar pó de café espanta as moscas: funciona. Soubemos também da história do cavalo que caiu na caixa d’água. Dependendo de como contada pode ser um história engraçada, ou trágica. Afinal, levou tempo para se saber por que a água estava com tanto mau cheiro.

Voltamos para o hotel bem à tardinha. Ficamos por lá mesmo, afinal foi um dia super puxado. Foi bom ver o fim do dia da varanda. Foi ótimo mais um dia amanhecer com a beleza da Segunda Praia.

Durante o café conhecemos o rapaz do hotel que faz o curso de administração em Valença alguns dias a noite. Um super esforço, mas o corintiano estava bem decidido. Achei bem legal. Bom exemplo. Falou do livro do Chiavenato e como esse era caro, mas sabia que era um bom livro. Interessante.

Saímos cedo e na estrada paramos no já bastante conhecido LP, onde almoçamos uma comida sempre boa. Daí fomos para Arraial da Ajuda. Chegamos ao fim da tarde. Custamos a achar o hotel, mas acabamos achando uma pousada de um casal mineiro. Na cidade, longe da praia, mas com um jardim interno. O quarto amplo e confortável, e de manhã acordamos com o sabia cantando na árvore em frente ao quarto. A foto ficou ótima.

Jantamos no Italiano, foi muito bom. O vinho estava ótimo. Compramos um presente para Bia, e uma camisa para mim. Marta comprou umas tiaras na loja de uma gaúcha radicada em Arraial. Muito bonitas e bem trabalhadas. É ótimo poder andar pelas ruas de Arraial.

Saímos cedo para visitar Trancoso. Ficamos um bom tempo no Quadrado, tirando fotos, vendo as casas, as galerias e chegamos a igreja; mais fotos. A vista é espetacular. No retorno para o carro compramos a luminária de tijolo decorado. Está hoje na sala. Pegamos a estrada de volta a Arraial e compramos uns coqueiros decorados na saída de Arraial. Estão na cozinha.

Ainda tentamos saber onde era a casa de Lia, mas sem sucesso. Seguimos para Prado. A estrada entre a BR e Prado é um exemplo claro da falta de sentido na devastação da mata atlântica: quilômetros de pasto super verde, mas sem necessidade. Ao fundo, do lado esquerdo a mata preservada pelo Parque Nacional do Descobrimento, ainda bem. Parece que os fazendeiros são insensíveis quanto às árvores. Aqui e acolá se consegue ver uma árvore que ficou, talvez mesmo, para mostrar a brutalidade da devastação. Longos campos verdes, sim com algum gado. A estrada é bonita e quase sem transito. Poucos quebra-molas, mas há que ter atenção: como sempre.

Chegamos ao hotel já bem no fim do dia. Fui mergulhar já sem luz do sol. Pegamos o carro para irmos jantar. A cidade movimenta-se ao redor de um retângulo, similar a Trancoso na forma, mas sem o charme de lá e com carros em volta da praça. Escolhemos um restaurante segundo o guia, mas o prato ficou a desejar. A moça que nos atendeu, bem simpática estava na dúvida entre cursar turismo ou enfermagem. Fiz uma observação sobre a importância dos serviços de enfermagem, ressaltando que aprenderia algo que poderia ajudar a salvar vidas. Será que me escutou?

Depois do jantar resolvemos passear no retângulo de Prado. Achamos algumas lojas interessantes, mas a principal descoberta foi o melhor sorvete do Brasil! Melhor que o da Ribeira. Impressionante. Chama-se Sorveteria Tropical, pitanga, umbu, coco, tangerina. Incrível. Vimos também o cachorro quente do Seu Madruga, deu vontade, mas já tínhamos jantado.

Acordamos com chuva. Dei um mergulho mesmo assim. Tomamos café e seguimos para Alcobaça. No portal da cidade uma grande estátua de uma baleia; a marca da região. Tiramos boas fotos.

Seguimos para Vitória. Na travessia do Rio Doce, um imprevisto: um desastre no meio da ponte, um rodízio de quem vinha e de quem ia. Deu um certo susto, ficar parado sentindo a ponte tremer. Trecho super perigoso, com os treminhões. Entrei na direção de Santa Cruz usando novamente a estrada da Aracruz, refazendo o mesmo caminho da vinda. Paramos na barraca dos índios Guaranis, onde comprei presentes para Julio e Pedro e para mim também. Eu já tinha pensado em parar na hora da ida, mas ficou para volta. Que bom que consegui.

Em Vitória ficamos no Ibis, fomos jantar num restaurante famoso pela moqueca e que fica bem perto do hotel. Foi ótimo. Acordamos e seguimos, via Anchieta, para Búzios. Paramos em Anchieta para ver o museu, a igreja e tirar algumas fotos.

Foi ótimo chegar a Búzios, rever a família e poder ficar um pouco com minha irmã que mora em Brasília. No outro dia voltamos para casa.

6700 quilômetros: lindas paisagens, falta de infra-estrutura, mesma estrada de há trinta anos, mas essencialmente uma viagem onde o ponto alto foram as diferentes pessoas que nos ajudaram a fazer essa redescoberta dessa linda parte do planeta terra, talvez a mais linda dela, mas principalmente uma região em que me sinto em casa.

Obrigado a todos que de alguma maneira tornaram isso possível, quer seja consertando um pneu, colocando gasolina no carro, dando informações importantes, sorrindo numa venda, ajudando na escolha de um prato, ajudando na escolha de um quarto, conversando sobre a vida, falando do futuro, desejando melhorar, consertando o carro, navegando as várias baías, servindo as melhores frutas, os melhores peixes, cortando o melhor coco. Obrigado pelos sorrisos, tantos e sinceros.

Caramba, realmente temos que agradecer a todas essas pessoas, elas fizeram os 6 700 quilômetros serem o que estes foram: inesquecíveis.

sexta-feira, julho 31, 2009

Nada Serve de Chão

Tomo a liberdade de postar uma foto que tirei do youtube.




Nesse momento, no documentário “Coração Vagabundo” de Fernando Grostein Andrade, Caetano fala sobre uma música que ainda é uma idéia. A essa música Caetano deu o título de “Minhas Lágrimas” e faz parte do álbum Cê. Nela o poeta Caetano diz:


Nada serve de Chão. Onde caiam minhas lágrimas.
Esse pequeno trecho é uma obra prima. Além dos versos acima: a voz do interprete e a beleza da música. A música é simplesmente fantástica, porque geográfica. O toque do violão é mexi-cali. Simplesmente incrível.

O que faz Caetano ser o que é, ao contrário do que pensa Hermeto Paschoal "Caetano é bom poeta, mas como músico é um musiquinho" é a combinação de poeta, músico e interprete. Escuto Caetano desde seu primeiro álbum "Gal e Caetano Veloso - Domingo" (1967) . Sua interpretação original de “Coração Vagabundo” já mostra os talentos de poeta, músico e intérprete. Sobre interpretação: “Coração Materno”, música de Vicente Celestino, no álbum "Tropicália ou Panis et Circensis" (1968), já mostrava as possibilidades futuras.

O que Caetano fez desde o primeiro álbum até hoje foi continuar aprendendo e continuar passando o que aprende para o público. Hoje é reconhecidamente um intérprete: sua participação no filme “Hable com Ella” de Almodóvar é simplesmente fantástica, aliás a sequência que termina com “este Caetano me ha puesto los pelos de punta” é uma das mais belas do cinema, onde a piscina serve de entrada e saída da sequência.

O documentário é tranquilo, pretende ser cosmopolita, é intimista e é fundamentalmente transparente. Não pretende ser completo, mas deixa que o público conheça mais de um artista ímpar.

O tempo do filme é do Caetano introspectivo, dum Caetano um pouco triste, mas fundamentalmente de um Caetano no limiar da sabedoria. As falas tomadas em Kyoto, no parque dos bambus, onde Caetano fala sobre a velhice, sobre a burrice do mundo e sobre a morte são mostras do aprendizado de todo esse tempo.

De tudo, me surpreendeu uma visão colonialista de Caetano. Posso estar equivocado, mas o fato de que Caetano tenha se colocado em posição “inferior” ante a um dos vários jornalistas americanos, me deixou intrigado. O fato de ter nascido e vivido até os dezoito anos em Santo Amaro, nas margens da mais linda baía de todo o planeta terra é irrelevante, tanto faz. Talvez, por ter nascido ali, possa ter tido essa vontade imensa de aprender e conhecer o mundo.

O documentário é de uma leveza fantástica, como bem notou meu amigo Juarez, que me ligou para que eu não deixasse de ver. Obrigado. Fui, no mesmo dia.
Se gosta de música, de imagens metropolitanas e, principalmente, se gosta de Caetano: vá ver “Coração Vagabundo”.